Por Gabriela Carolina Senem

Essa é uma história da minha juventude. Eu era uma professora recém formada, com 23 anos, e consegui ser contratada para trabalhar em uma escolinha no interior da cidade vizinha. A escola ficava bastante afastada em uma comunidade de agricultores, eu não tinha carro e não tinha nenhuma linha de ônibus que passasse por lá. Para que eu pudesse trabalhar tranquilamente, aluguei uma pequena casa na propriedade de um casal de agricultores daquela região. Eu dava aulas na escolinha a semana toda e nas sexta-feiras meus pais me buscavam para passar os finais de semana com eles.
Na propriedade da casa, havia muitos gatos. A esposa do proprietário tinha uma verdadeira paixão por esses animais. Eu estava acostumada com a presença deles e com os barulhos de gatos brigando no telhado, miando durante a noite ou arranhando a porta da minha casa. Então eu não achei estranho quando certa noite acordei com o som de um miado muito alto e estranho, como se o gato estivesse machucado, nos seus últimos momentos. Levantei e caminhei até a janela do meu quarto, ouvindo o ranger das tábuas do piso de madeira, quando espiei pela janela não vi nada, nada além das árvores e da grama lá fora iluminadas pela luz prateada da lua. Mas o miado continuava, em algum lugar além das árvores fora da minha visão. Sem preocupações, me deitei e dormi.

Na manhã seguinte, enquanto seguia a pé até a escola, o miado estranho era um pensamento distante e nada preocupante, se eu soubesse o que viria nas noites seguintes teria deixado aquela casa naquela manhã mesmo. Trabalhei normalmente naquele dia, as crianças estavam bastante agitadas com a proximidade do recesso escolar de junho, animadas com as duas semanas de férias, e eu também estava ansiosa, planejava passar esses dias com meus pais na cidade. Após a aula, voltava para a minha pequena casa de madeira. No caminho encontrei a esposa do proprietário, perguntei a ela sobre os gatos, se não tinha nenhum machucado e relatei o miado que tinha ouvido na noite passada. Ela pareceu confusa.
“Nenhum dos gatos está machucado”, disse ela. “Talvez estivessem brigando e por isso o barulho, mas não se preocupe, só não se aproxime dos gatos quando estão assim, eles podem te arranhar”.
Eu dei o assunto por encerrado, não tinha porque me preocupar com os gatos, eram todos animais bem alimentados e saudáveis. Eram um pouco ariscos, gatos criados para caçar ratos em ranchos e manter essa praga longe do lugar, e aquela miado era de um gato que estava brigando, nada mais.
Mais uma noite e o miado me acorda outra vez, agora mais alto, mais sombrio e mais perto da casa. Eu sinto um arrepio pelo meu corpo e uma camada de suor frio cobriu minha pele. Eu hesito em me levantar e espiar pela janela como na noite anterior. O miado parecia grotesco e não natural. Forço minha mente a pensar racionalmente, é apenas um gato, talvez não seja um dos gatos da propriedade, mas um gatos selvagem, isso explicaria a diferença no miado.
Levanto, caminho até a janela para espiar o que está acontecendo. A luz da lua ilumina tudo lá fora, a mesma paisagem, árvores, grama e alguns gatos sentados lá fora, olhando para minha janela, seus olhos refletindo a luz prateada e se iluminando como faróis. Por que eles estão olhando para minha janela? Sentados como se esperassem alguma coisa. O arrepio se intensifica, eu fecho as cortinas da janela, tentando esquecer os olhos e o miado.
Como uma criança apavorada, me enfio embaixo dos cobertores, rezando para que o medo fosse embora, para que o miado fosse embora, para que os gatos parem de olhar para minha janela. Eu caio no sono e na manhã seguinte não há sinal dos gatos.
Eu procuro a proprietária, compartilho com ela minha suspeita sobre o miado.
“Um gato selvagem?”, disse ela com espanto. “Pode ser. Meu marido disse que viu um bicho estranho andando pelo mato, mas não precisa ter medo, esses bichos não comem gente, moça. Essa noite vou prender os gatos todos no rancho, não quero que meus bebezinhos se machuquem”.
Ela ignora completamente quando digo que os gatos estavam encarando minha janela. Voltando para dentro da própria casa, dizendo que tinha muito trabalho para fazer.
Eu não durmo na terceira noite, pensando no miado e nos olhos dos gatos, esperando o som do miado, no dia seguinte, sexta-feira, último dia antes do recesso de junho. E eu iria para casa dos meus pais por duas semanas, longe de gatos e miados assustadores, esse pensamento me trouxe paz e eu comecei a relaxar, sentindo o sono se aproximar.
É quando eu escuto o miado, ainda mais bizarro, agora não tanto quanto um miado, mas um som gutural, além desse mundo. Escuto também os miados dos gatos presos no rancho da propriedade, miando juntos em desespero doloroso. Arranhões na minha porta da frente, o som de um animal muito maior que qualquer gato tentando derrubar minha porta com suas garras.
Salto da cama e corro para o banheiro, me escondo lá e tranco a porta, rezando, pedindo, implorando a Deus que a criatura berrando do lado de fora não seja capaz de derrubar minha porta. O barulho para. O silêncio parece opressor, eu me levanto aos poucos do chão do banheiro e abro uma fresta na porta para espiar, dentro da casa apenas escuridão. Caminho devagar, ouvindo o estalar do piso.
Silêncio.
Nada além de silêncio.
Nenhum som de farfalhar de folhas com o vento noturno, nenhum som de insetos, nenhum miado.
Silêncio.
O barulho da minha respiração acelerada e dos meus passos dentro da casa se espalhavam pela escuridão e morriam no silêncio.
Eu caminhei até a porta da frente, cruzando meu quarto e a cozinha. Parei, encarando a porta onde momentos antes eu tinha ouvido os urros de alguma coisa, arranhando minha porta, tentando entrar, ela tinha ido embora?
Silêncio.
A porta da frente continuava trancada.
Eu me aproximei tremendo, pensando se a coisa tinha ido embora mesmo, meus dedos tocaram a chave e eu a giro na fechadura, quando escuto o som de vidro quebrando vindo do meu quarto e eu sei que a coisa passou pela minha janela.
Os miados dolorosos dos gatos voltam, o miado bestial vindo do meu quarto ainda mais alto, muito perto de mim.
Eu abro a porta e corro para fora, corro noite adentro em direção à casa dos proprietários. Sentindo algo me perseguir de perto, mas sem coragem de olhar, sem forças para encarar o que quer que seja que esteja atrás de mim.
Quando me aproximo da casa, vejo os dois sentados na varanda, conversando, dividindo os acontecimentos do dia, eu grito por socorro e vejo os dois se levantaram em um pulo. O homem fica pálido e paralisa, a mulher corre arrastando o homem para dentro da casa, nós três entramos e fechamos a porta. Ouvimos os miados, os urros e os arranhões na porta e nas persianas de madeira nas janelas até perto do nascer do sol. A criatura se foi.
A mulher não era capaz de descrever o que tinha visto, nada além de uma confusão de olhos vermelhos e pelos escuros, o homem não falava, ainda pálido e paralisado.
Eu recolhi minhas coisas e esperei meus pais me buscarem, voltei para casa e não pensei em voltar para aquele lugar. Nunca pensei em descobrir o que era aquela coisa, a origem dos miados. Só pensei em ir para longe, o mais longe possível.


Gabriela Carolina Senem é professora, leitora e jogadora de RPG. Apaixonada por literatura, especialmente por histórias de terror e fantasia, acredita que cada página é um portal para outro mundo. Gosta de gatos, de um bom café e até de alguns clichês, afinal, são eles que deixam as histórias (e a vida) mais interessantes.





