
Existem histórias que moram na nossa memória afetiva. Contos que cresceram com a gente, que sabemos quase de cor e salteado e por mais que a gente conheça o final, ao mudar qualquer elemento, têm o poder de continuar a nos despertar curiosidade. Talvez seja por isso que eu ame tanto novas versões dos clássicos, quando bem contadas, é claro.
Eu não me incomodo nem um pouco com spoilers; na verdade, até gosto de observar como cada autor vai conduzir o caminho até aquele final que já conhecemos. O que muda? O que permanece? Quem é essa nova Cinderela que surge em cada releitura? Fico esperando para ver como o sapatinho de cristal vai fazer sentido na história.
Então, quero compartilhar três das minhas leituras que trabalham a essência do conto original de formas completamente diferentes. Três Cinderelas, três universos, três experiências.
Cinder, de Marissa Meyer
Cinder foi o meu primeiro contato com As Crônicas Lunares. Lí lá em 2023, e lembro que foi uma experiência deliciosa! Nessa obra, a protagonista é uma garota meio humana, meio ciborgue, chamada por sua madrasta má de “abominação tecnológica”, mas não é só a madrasta que não gosta dela, toda a sociedade a vê como uma estranha. No entanto, isso não a impede de ser uma das mecânicas mais famosas da cidade Graças às suas habilidades e sua fama, o príncipe Kai a procura para que ela conserte um androide essencial antes do grande baile.
A história mistura ficção científica, política, relações tensas entre Terra e Lua, uma peste mortal que assombra a população e uma protagonista que tenta entender quem realmente é, como ganhou suas partes mecânicas e o seu lugar no mundo. Aqui o sapatinho de cristal se transforma em uma prótese, que lhe permite andar sem dor. Além disso Cinder ainda precisa lidar com a perda, o medo, e descobertas, tudo muito bem amarrado, com ganchos para os próximos livros, que também trazem novas versões de outros contos como Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel.
Foi uma leitura que me surpreendeu pela criatividade e pela forma como manteve aquela centelha do conto clássico dentro de um universo futurista completamente novo.
O livro está disponível no Kindle Unlimited.
Stepsister, de Jennifer Donnelly
Também lido em 2023, Stepsister é quase o oposto de Cinder. Aqui, voltamos ao cenário mais tradicional, mas o que muda é a perspectiva. Aqui Cinderela (Ella, como é chamada pelas irmãs) já teve conheceu seu príncipe e está vivendo seu final feliz. O que nos resta então é acompanhar Isabelle, a irmã má, que ao tentar ser escolhida pelo príncipe cortou a ponta de seu pé, para que coubesse no sapatinho de cristal. A que ponto ela foi capaz de chegar só para ser aceita.
O que mais amei nessa história é como ela desconstrói a ideia de vilã. Isabelle é humana, cheia de falhas, arrependimentos, inveja, mas também força e vulnerabilidade. Ela vive dividida entre o remorso por ter atormentado Ella e a dor de nunca ter sido considerada bonita o bastante. Ela precisou enterrar partes de si para poder se adequar, agradar e ser o que se espera de uma boa moça. Agora pobre, rejeitada e responsável por cuidar da mãe e da irmã, ela precisa reconstruir quem é.
Uma camada de fantasia adicional na história é Fate (Uma das irmãs que tecem o destino) e Chance (Um bon vivant que traz um toque do acaso e liberdade), que fazem uma aposta sobre o destino de Isabelle, um destino que pode mudar o rumo da humanidade.
É uma fantasia com camadas profundas sobre autoestima, crueldade, expectativas sociais e sobre como a falta de amor pode corroer qualquer coração. Pontos adicionais por ser uma fantasia de livro único, coisa rara atualmente.
Além disso, fiquei interessada em ler Poisoned, da mesma autora, que reconta a história da Branca de Neve.
Stepsister também está disponível no Kindle Unlimited.
Será que é Meu Número?, de Julie Murphy
Uma das minhas leituras mais recentes, ele traz a versão mais moderna e “pé no chão” da Cinderela. Aqui, a madrasta não é má, e as meias-irmãs são uns amores, e isso já coloca tudo em outro tom.
Cindy é uma protagonista plussize apaixonada por sapatos que decide participar de um reality de namoro, não tanto pelo príncipe, mas pela chance de divulgar seu trabalho como designer e, quem sabe, garantir uma oportunidade na carreira.
Mas em meio a câmeras, competição e mil expectativas, ela começa a se perguntar: será que pode querer mais? Será que pode sonhar com amor, reconhecimento e protagonismo mesmo sem seguir o padrão que o mundo insiste em cobrar?
A narrativa é divertida, leve, cheia de clima de comédia romântica de Sessão da Tarde, mas ainda toca em questões importantes sobre corpo, autoestima e pertencimento. Cindy enfrenta aqueles problemas que toda pessoa gorda já passou e que não são vistos pelos outros, como o fato de a produção do reality simplesmente não ter pensado em roupas do tamanho dela.
Também vale destacar uma importante lição que a Cindy aprendeu e que me marcou é “sempre se escolher primeiro!”. Essa releitura é muito fofa, divertida e super atual.
Livro disponível no Skeelo.
Apesar de muito diferentes entre si, indo de contemporânea à futurista, passando por fantasia, essas três versões carregam algo em comum: aquele gostinho familiar de conto de fadas que a gente ama. Cada uma entrega uma nova lente para olhar Cinderela, sem perder o encanto que faz essa história atravessar gerações.
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