ESTAÇÕES

É verão. Ele chega de leve como o vento refrescante daquele fim de manhã de quarta-feira. Encosta a bike ao seu lado na cadeira plástica do barzinho e pede uma cerveja. No balançar da cabeça, ao som dos fones de ouvido, sente o calor à beira-mar. Entre um gole e outro, olha em volta displicente, como se ninguém estivesse ali.

Com o passar dos minutos, deixa na mesa os óculos, o celular e os fones dentro da camisa. Joga os chinelos e entra na água. Descolado, envolvido no calção preto traz na indiferença um certo charme. Um mistério curioso, de olhares que se disfarçam. Retorna e tira o sal do corpo moreno no chuveirinho próximo. Se veste, põe o boné e volta a pedalar para longe dos olhos observadores dela.  

É outono. No finalzinho daquela tarde ainda abafada, ela caminha até a praia. No arrastar dos passos nas lajotas daquela rua percebe, além das cercas e muros, gramados ainda verdes, bem cortados, e vasos com folhagens já secas. 

 Na garagem da esquina, dois chapéus de palha balançam em um gancho no canto da parede. Ali perto, um adolescente tenta marcar um encontro com alguém pelo celular. “Vem aqui na sorveteria. Diz para o teu pai que eu cuido de ti”, tenta convencer.  Aguarda, ouve o retorno da mensagem, que não convence, e vai embora. 

Na areia, a retirada da estrutura metálica de palcos e arenas estalam em batidas ritmadas. Fica o espaço livre para as próximas marés. Dois ou três tarrafeiam em uma ponta da praia. Seis ou sete jogam anzóis em outra. Ele não está ali.  

É inverno. Dos dois lados da rua, de portas e janelas fechadas, não há redes ou cadeiras nas varandas. O vento gelado traz barulho aos galhos das árvores, espanta os pássaros e enche as calçadas de folhas.

No mar de poucas ondas, ninguém arrisca a água fria. Um cachorro grande e desengonçado rouba a bola de um grupo de crianças e corre com ela na boca. A algazarra com a brincadeira só não é maior do que os gritos dos pais, os chamando de volta. 

Nos bares, sem clientes, mesas e cadeiras plásticas são retiradas mesmo antes da hora de fecharem. Os guarda-sóis nem foram fixados naquela tarde nublada. Deve ser por isso que ele não está ali. 

É primavera. Lá fora a forte chuva pontilha as vidraças das altas janelas. Lá dentro, os acordes soam altos na companhia de amigos. Ele a vê. É o amigo do amigo da amiga. 

O tempo, desde aquele verão, só cruzou seus olhares um ano depois, naquele show de rock do pub à beira-mar. Ao percebê-lo, volta-se rápido para o palco e, palpitando, sente às costas de sua desbotada jaqueta jeans a aproximação da velha camiseta de banda que arfa nervosa no peito dele.

 Um calafrio percorre a pele e alerta os poros. A respiração acelera. De leve, a camiseta dele encosta na jaqueta dela e, braços estendidos ao longo dos corpos entrelaçam os dedos de mãos trêmulas. A música alta parece parar com o sussurro dele ao ouvido dela:  

- Era você que eu procurava... 

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