BEM QUE...

Você me ligou? Perguntou ele, duas horas depois, com a voz abafada pelo intenso barulho daquela avenida. Pela situação, ligar parecia algo desconexo. Mas, mesmo assim, ela ligou. E o número ficou gravado na memória dele e do celular. 

Mais de uma vez Carolina caminhou por aquela longa e movimentada avenida. Sabia que Guilherme estaria lá, do outro lado dos prédios enfileirados. Bem que, ao menos, poderia ouvi-lo, pensou. E, no entardecer de uma sexta-feira de inverno, não controlou a vontade de novamente buscá-lo. Suspirou profundo para reorganizar os pensamentos e, ligou.

Pouco disseram nos minutos interrompidos por outras vozes apressadas. Ele, desconfortável, entre frases entrecortadas, logo desligou. Ela, aturdida, tentou em vão acalmar os sentidos. Teria agora que lidar com o desequilíbrio daquela dor renovada. 

***

À noite, a chuva que insistia em pontilhar as vidraças do terceiro andar, aqueceria as lembranças. Ao abrir a cortina Carolina ainda sentiria no faiscar das luzes lá embaixo o eco daquela voz. Todo o quarto daquele hotel era uma grande pergunta. Era ela, sem Guilherme. 

O vento que descia o morro e circundava a cidade trazia o zumbido daquela voz que ainda lhe perturbava. Tentaria ouvir música e um audiolivro. Pediria um lanche. Se perderia em memes bobos. Nem pensaria em ligar a tevê. Reviveria as incertezas de não tê-lo perto ou ser buscada por ele. 

Queria ter resistido aos impulsos, às provocações e chamados - já que haviam combinado que seguiriam separados na busca pelos próprios contentamentos.  Mas, como encarar tanta falta? praguejaria baixinho. Olharia outra vez em volta, para a cortina, para a janela, à procura de algum sinal, que não viria. 

***

O dia amanheceu sonolento. Carolina desceu os degraus de madeira que estalavam a seus pés. A chuva continuava fria e indecisa. O ruído da avenida se impunha num cotidiano frenético de gente uniformizada para o trabalho ou escola. Em meio àquele turbilhão, Guilherme permaneceria lá, do outro lado dos prédios enfileirados. 

***

Naquela avenida, impregnada de dúvidas, os passos da travessia permaneceriam guiados pelas indecisões da procura de se encontrar. O vento continuaria a balançar as folhas das poucas árvores, de onde os pássaros há tempos foram afugentados. 

Carolina aguardaria com calma a livraria da esquina abrir. Compraria um livro e se ocuparia dele por muitas horas. Deixaria esgotar todas as possibilidades que a realidade lhe concederia. 

Bem que poderia ter sido diferente. Bem que poderia não ter sido. Talvez não devesse ter ligado. Mas, sim. Ela ligou. E Guilherme atendeu com a voz abafada pelo intenso barulho daquela avenida.

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